terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ódio.com (Parte 2)

Decidi continuar a falar sobre o ódio que é extravasado na internet. Meu foco será em relação ao ódio contra as mulheres e as razões são simples. Pesquisas indicam que mulheres são as pessoas que mais sofrem ameaças no mundo virtual - não por acaso no mundo não-virtual são as maiores vítimas de crimes sexuais também. O fato é que avançamos bastante contra o racismo e a homofobia. Precisamos avançar mais, mas pelo menos projetos de leis que especificam o racismo e a homofobia como crimes ao menos foram pautados. Já sobre o machismo e a misoginia ainda há pouco, muito pouco. As mulheres ainda são pouco contempladas no que se refere à políticas públicas de combate ao preconceito mesmo sendo elas os principais alvos. 

Já os grandes meios de comunicação pouco colaboram. Crimes como o Massacre de Realengo - cuja principal motivação foi a misoginia - foram tratados superficialmente pela mídia. Praticamente nenhum grande jornal ou portal de notícia destacou o fato de que o atirador fazia parte de comunidades machistas e atirou para matar principalmente meninas. O atirador participava de fóruns e comunidades misóginas, ali recebeu estímulo para levar adiante seu plano infame e a tragédia aconteceu. 

O fato é que essas comunidades misóginas - conhecidas pelo termo "masculinistas"- se proliferam sob as vistas grossas das autoridades. Nessas comunidades o ódio e o estímulo à violência contra as mulheres são livremente pregados sem que os homens por trás dos perfils fakes sejam minimamente importunados pela polícia. A situação é grave. 

Mas ainda mais grave é perceber que não apenas nesses ambientes declaradamente misóginos o ódio contra as mulheres rola solto. Em grandes portais de notícias comentários machistas e misóginos chegam a ser a maioria em notícias que tratam da violência contra as mulheres. O caso mais recente é essa matéria da Folha de S. Paulo.

A matéria é uma das raras ocasiões em que o machismo e a misoginia são tratados de maneira minimamente séria por um grande veículo de comunicação. A matéria é boa, dá voz às mulheres que são alvos das ameaças e traz uma discussão sobre o assédio contra as mulheres na internet. Fui conferir os comentários e não me surpreendi. Sempre o mais do mesmo. 


Esse primeiro comentário insiste numa velha prática: colocar o feminismo como o contrário do machismo. Aqui a falácia é aplicada sob um outro espectro: colocar a misandria no mesmo patamar que a misoginia. A desonestidade do comentário é óbvia. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento sobre o feminismo sabe que:
1. Feminismo não é o contrário de machismo. Enquanto o feminismo luta pela igualdade de direitos o machismo é um sistema de opressão que perpetua a desigualdade entre homens e mulheres. 
2. Nenhum homem foi morto por ser homem, simplesmente o fato de ser homem não é fator estimulante para que um assassinato seja cometido. Por outro lado, mulheres são mortas todos os dias por serem mulheres.
3. Feministas não odeiam homens. O fato de feministas lutarem pelos direitos das mulheres não significa que elas odeiam os homens. Desde quando lutar por direitos de um grupo significa odiar outro grupo?


Esse segundo comentário é tão absurdo que chega a ser cômico. Posso retomar os argumentos que usei para o primeiro comentário. O fato de lutar pelo direito das mulheres não significa atingir os direitos dos homens e a luta não é motivada por "inveja" dos homens (ai, ai Freud...). A questão é simples: mulheres são atingidas cotidianamente pelo machismo e misoginia. Mulheres são assediadas nas ruas e na internet, são vítimas da violência doméstica, são tratadas como cidadãs de segunda categoria. Isso não é novidade. Num determinado momento um grupo de mulheres disse não! Um grupo de mulheres se rebelou e nasceu o feminismo (estou simplificando absurdamente a história, é só para ilustrar por enquanto). O feminismo é assim um movimento que luta contra a violência contra as mulheres e pelo direito das mulheres. Agora me respondam: qual é a relação disso com "inveja de homens"? 

Acho que já deu para ter um gosto de como essa série vai se desenvolver, certo? Aqui iremos destacar o ódio contra as mulheres que infesta a internet, infesta a internet porque é algo que infesta a própria sociedade. O método será:

  1. Verificarei notícias que falam sobre mulheres/feminismo e lerei os comentários destacando aqueles que expressam machismo e misoginia;
  2. Colocarei os prints e rebaterei os argumentos mais comuns usados pelos machistas/misóginos.
  3. Uma vez que os comentários são públicos não ocultarei a autoria das mensagens. 
Apertem os cintos! A viagem para as mentes sombrias de machistas e misóginos está apenas começando.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Prefeito de São Paulo humilha Villa e Sheherazade

Tranquilão esperando suas perguntas


Entrevista matadora do prefeito de São Paulo na Jovem Pan! Haddad com muita tranquilidade demoliu os argumentos frágeis e sensacionalistas do “historiador” Marco Villa e da “jornalista” Rachel Sheherazade. Eu coloco jornalista e historiador entre aspas porque pessoas que conduzem entrevistas desse nível envergonham suas profissões. 

Posso falar de Villa com mais propriedade.

Uma/um historiadora/dor tem OBRIGAÇÃO de fazer análise de longo prazo e confrontar dados. Fazer análises baseado no que ele vê, sem analisar e comparar dados e conjunturas é um erro vergonhoso e tão grotesco que duvido seriamente da formação do senhor Villa. Ou deveria duvidar da honestidade dele? Porque um historiador que deliberadamente ignora dados para usar de sua autoridade a fim de promover uma ideologia é um criminoso. Essa história eu conheço, Villa também deveria conhecer. Poucas áreas do conhecimento foram tão torturadas como a história a fim de legitimar os maiores crimes. Triste ver que ainda há historiadores que se prestam à esse papel. 

Haddad, por sua vez, deu show. Conseguiu responder com muita segurança as perguntas, conhece os dados, conhece a cidade e mostrou que planeja as políticas que conduz. Evidentemente que Haddad não é e nem será popular nos bolsões de riqueza de São Paulo, habitat do que há de mais retrógrado e tacanho na sociedade brasileira contemporânea. Gente que não quer abrir mão de absolutamente nenhum conforto pelo bem comum. Gente que não sai de seus carrões, que nunca saiu de seus bairros ricos. A política de Haddad contempla uma população de periferia que foi sistematicamente negligenciada pelo poder público. Essa população não é de interesse da Jovem Pan, da Veja, do Estadão. Essa população é aquela que os nobres moradores de Higienópolis admitem apenas como limpadores da sujeira que produzem em suas coberturas, ao menor aceno para os direitos dessa população a elite raivosa ouvinte da Jovem Pan e leitora da Veja baba de ódio. 


Sem mais delongas, um link para a entrevista. É longa, mas vale cada minuto. Cada minuto que demole a canalhice de certas pessoas que dominam a mídia coorporativista. 


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Ódio.com



É surpreendente como a humanidade ainda não se auto-destruiu. Sério. Eu fico olhando alguns comentários na internet e tenho ficado um pouco paranóica. Quando pego transporte público me pergunto quantas daquelas pessoas que estão ao meu redor são aqueles personagens anônimos que destilam ódio na internet. Quantas daquelas pessoas que me rodeiam escrevem em notícias de estupro dizendo que a vítima “mereceu”? Quantas daquelas pessoas ameaçam pessoas como a Lola com violência sexual e esquartejamento só porque ela ousa falar de feminismo? Quantas daquelas pessoas comentaram que Jandira Magdalena Cruz, que morreu após um aborto realizado clandestinamente porque o Estado brasileiro é omisso, comentaram que Jandira mereceu a morte que teve? 

Homem comenta sobre a morte de Jandira Magdalena Cruz


Eu assisti o vídeo da Giovana, aquela menina que acaba em maus lençóis depois que o forninho caiu sobre ela. Caí na besteira de ler os comentários e li gente - os mesmo moralistas que defendem embriões - chamando a garotinha de “puta”. O que leva uma pessoa a chamar uma menininha de “puta” só porque estava dançando em casa? Para essas pessoas a “vida” e a “dignidade” das crianças (embriões, no caso do início da gestação) valem enquanto estiverem no útero das mulheres. Depois que nascem, especialmente se forem meninas, não importa mais. Depois que nascem vale chamá-las de “putas” por causa de uma dança dentro do quintal de casa. 

Homem xinga criança em comentário no vídeo "Eita Giovana"


É uma psicopatia coletiva, uma falta de empatia generalizada, o triunfo da crueldade. Estamos cercadas por pessoas que não pensam antes de opinar, que usam da segurança da internet para xingar, ameaçar, humilhar. Eu me pergunto se algumas pessoas realmente pensam o que escrevem ou se usam da internet para darem vazão à suas segundas personalidades psicopatas. Nenhum dos cenários é entusiasmaste, na realidade. 

Com tanto ódio, com tanta falta de compreensão, como ainda estamos aqui nesse planeta? 

Danilo Gentili, um dos seres mais repugnantes que ocupam horário na televisão (uma concessão pública que deveria cumprir função social, é sempre bom lembrar) tem milhões de seguidores fiéis no twitter. Um exército raivoso que defende o “ídolo” que diz o que eles pensam. Que diz que negras/os merecem bananas, que dispara sem cessar piadas machistas e misóginas, que sob o manto da inatacável “piada” não pensa duas vezes em vomitar o que ele pensa de verdade sobre negras/os e mulheres. Para ele e seus seguidores risadas boçais são mais preciosas do que a dignidade de outros seres humanos. Onde isso vai parar? 


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Uma crônica de merda

É muito difícil impedir que as pessoas digam merda. Primeiramente porque o sentido de “dizer merda” é muito subjetivo. Há muitos anos, quando eu ainda era uma adolescente deslumbrada, o namorado de uma amiga minha me contava que o professor de biologia dele dizia muita merda. Perguntei que tipo de merda ele dizia. O nobre rapaz, evangélico de carteirinha, me disse que o professor dizia que os homens vieram do macaco. Se o professor realmente disse “os homens vieram do macaco” eu concordaria que ele disse merda, mas duvido que a história tenha sido bem essa. Enfim, para o moço o professor dizia merda, para mim ficou o ponto de interrogação. 

E?

É que eu me vejo obrigada à retornar à pasta “Silvia Pilz”. Circula agora um texto que ela publicou há uns meses, texto mais antigo do que aquele sobre procriação, pobres e planos de saúde. Nesse “novo” texto, que na verdade é pré-histórico dada a tempística da internet, nossa colunista diz que tem uma tara em chamar “anões de anões”, que pessoas com síndrome de Down são estranhas, que crianças negras são feias e que todo mundo quer ser loiro de olhos azuis. 

Fico me perguntando quais são as fontes de Pilz para dizer que todo mundo quer ser loiro de olhos azuis. Diante da qualidade do raciocínio dela imagino que como ela gostaria de ser loira de olhos azuis deduziu que todo mundo tem o mesmo desejo. Deve ter muita gente que como ela faz masturbação mental imaginando possuir olhos claros e cabelos loiros. Mas deve ter muita gente feliz com suas peles negras, cabelos crespos e olhos castanhos. Tem muita gente feliz e muita gente que queria ser outra coisa. Vi um programa em que um menininho declarava que quando crescer quer ser um coelho. Eu preferiria ser o cachorro do meu colega de casa, que passa seus dias deitado sem preocupações recebendo cafuné e olhando pela janela. 

Na minha opinião Pilz falou merda. Tem gente que queria ter olhos claros e cabelos loiros que pode pensar que não. 

Imagino como uma pessoa com nanismo se sinta ao receber a inédita notícia de que causa estranheza. Os olhares indiscretos que recebem todos os dias na rua não devem fazer essas pessoas pensarem que Pilz escreveu alguma novidade. Talvez o que as surpreenda mais seja o fato de que Pilz quer ter o direito de chamá-las de “anão”. O que ela ganha com isso eu não sei, deve ser alguma tara estranha. Para mim gente que tem esse tipo de tara tem uma cabeça de merda e costuma dizer merda. Mas isso é bastante relativo. Tem uns humoristas sem-graça que pensam o mesmo que Pilz. Eles concordam entre eles. Eu só penso que dizem merda, muita merda. 

Uma amiga de uma tia minha tem um filho com síndrome de down. Ele é filho único e vive com a mãe. Os dois têm uma linda sintonia e relação. Ele terminou o ensino médio, foi mais devagar que outras crianças, mas terminou. Tem gente que não tem down e não termina. Todo mundo tem dificuldades, o que separa os fortes dos fracos é como enfrentam essas dificuldades, com ou sem a síndrome de down. Ele enfrentou com bravura. Hoje ele trabalha, é um cara relativamente independente e um filho zeloso e carinhoso com a mãe. Para Pilz ele causa desconforto. Para mim causa desconforto filhos ingratos que negligenciam as mães e pais. Pessoas têm taras e desconfortos muito diferentes, mas muitas vezes essas coisas são determinantes para a produção de discursos que podem ser inseridos no guarda-chuva semântico do “dizer merda”. 


Pilz me fez escrever um texto descontinuado porque me causa um enorme desconforto. É que o que realmente me causa desconforto é dizer muita merda. Mas acho que tanto Pilz quanto outros produtores de merdística devem poder continuar a produção. Aí ficamos sabendo o que pensam, aí rimos na cara deles e imaginamos o quanto tem gente que diz merda. Da merda nascem flores. Que os arautos da merdística nos façam pessoas melhores.  

E o hit de hoje é:


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Você sempre pode piorar o ruim

Carlos Latuff estava entre os cartunistas que eu mais gostava. Tem um traço bacana e normalmente manda bem na arte de passar uma mensagem poderosa com a concisão de um cartoon. Mas ele caiu na armadilha que eu tentei discutir nesse post. Não quero me repetir, mas meu ponto é que quando você tenta dar voz à uma experiência que você desconhece as chances de fazer uma enorme besteira aumentam muito. Desconfio de quem entra na onda da defesa de tudo. Isso não quer dizer que você deve se omitir diante de racismo, machismo, xenofobia… nada disso. Isso quer dizer que você precisa ter a maturidade de reconhecer que ao tentar falar sobre esses temas POR QUEM vivência essas realidades todos os dias você parte do pressuposto arrogante de que você é capaz de falar pelos outros. 

Eu sou branca, nunca sofri racismo na minha vida! Nunca! Eu posso apoiar o movimento das mulheres e homens negros, mas eu tento fazer isso primeiramente ouvindo o que essas pessoas têm a me dizer, tentando compreender o que elas têm a me ensinar. E eu aprendi um monte de coisas. 

Um dia estava com umas amigas num churrasco. Uma delas é negra, uma socióloga estadunidense que dá aulas numa universidade nos EUA. Ela é uma mulher negra que além de vivenciar o racismo todos os dias estuda o tema há anos. Nesse churrasco o assunto do acesso ao ensino superior entrou em pauta. Naquela época eu era contra cotas raciais e manifestei minha opinião e soltei uma frase racista. Ela me escutou pacientemente e depois demoliu meu discurso de menina de classe média branca. Não estou diminuindo o fato, ou me envergonhando, de ser branca e de classe média. Estou dizendo que eu estou numa posição privilegiada. 

A primeira vez que botei meus pés numa instituição de ensino público foi quando entrei na universidade, isso depois de estudar toda a minha vida em escolas particulares. Não precisei trabalhar enquanto estudava, morava numa casa confortável, minha grande preocupação na vida era estudar para a prova de matemática, meu maior pesadelo! Ia para a escola bem alimentada, quando voltava o almoço estava pronto, cozinhado pela empregada. Uma das filhas dessa empregada, que era negra e tinha evidentemente filhos negros, engravidou quando era muito jovem, entrou no mundo das drogas, vou chamar essa menina de Marina, é um nome fictício. Marina era um pouco mais nova do que eu e fazia a própria comida enquanto a mãe dela cozinhava para mim. Marina voltava sozinha da escola pública enquanto a mãe dela ia para a porta da minha escola particular me buscar. Enquanto a mãe dela se preocupava em lavar e passar minhas roupas Marina se virava sozinha. Porque para sustentá-la a mãe dela precisava cuidar de mim enquanto ela passava o dia inteiro sozinha. Eu tive milhões de mais chances do que Marina. Enquanto eu vivia protegida dentro dos muros da minha casa ela vivia numa favela rodeada pela miséria, era marginalizada, acossada. Ela foi tragada pela própria realidade assim como eu fui tragada pela minha. A minha é comemorada pela sociedade, recebo elogios e tapinhas nas costas. Ela é esculachada pela sociedade, apontada na rua e há quem diga que ela merece ser exterminada. 

Me respondam, por favor, quem sou eu para dizer que é a meritocracia que vale algo? Quem sou eu para dizer que não devemos abrir cada vez mais nossas universidades para as jovens e os jovens negros? A universidade sempre esteve aberta para mim e fechada para elas/es. Meu primeiro “mérito” foi ter nascido branca numa família que podia me dar muito, esse meu “mérito” involuntário pavimentou meu caminho. E ela? 

Minha mãe fala de mim com orgulho. A mãe de Marina reza para não receber um telefonema anunciado a morte da filha. 

Isso é uma das coisas que a minha amiga me ensinou. Eu demorei muito para aprender. Aquele churrasco foi determinante. Ter ouvido dela que eu fui racista foi determinante. Não vou me fazer de “fodona”. Na hora eu fiquei com raiva da minha amiga. Muita raiva de ter sido acusada de racismo. Mais com o tempo amadureci o que ela me ensinou, fiz a retrospectiva da minha história comparando com a história da Marina. Quando eu reencontrar minha amiga quero agradecer o tapa de realidade que ela me deu. Sem rodeios, sem concessões. Minha amiga me salvou de um pouco da minha ignorância. 

Sabe? As vezes ser confrontada com os próprios preconceitos, especialmente quando você se coloca como uma pessoa contra os preconceitos, dói demais. Incomoda demais. Mas antes de tudo, ensina demais. O exercício é difícil, mas é o mínimo que podemos fazer se nos propomos a fazer algo.


Carlos Latuff lançou uma tirinha machista uma vez. Foi confrontado. Lançou outra se retratando. Carlos Latuff lançou uma tirinha machista outra vez. Foi confrontado. Perdeu a chance de aprender. No alto da própria arrogância emite um tipo de discurso que não difere muito dos discursos que a gente privilegiada e covarde que ele denuncia se esforça por propagar. Tentou falar de feminismo dando exemplo do SCUM manifesto, reproduziu a tolice freudiana de que mulheres têm inveja do pênis. Se desnudou. Outros andam se desnudando também. O que pessoas como Latuff, Idelber Avelar e muitos outros mostram é que muitas vezes se engajar em muitas lutas é puro alimento para seus egos. Eles têm certezas, eles querem palmas e elogios. Na primeira hora em que palmas viram “Ei, peraí” eles regurgitam tudo o que diziam combater. Esse tipo de comportamento me faz pensar que muito da militância é puro egoísmo ou egolatria. Chame como preferir. 

P.S. As vezes termino o post com uma canção. Aqui vai uma pérola que tem tudo a ver com tudo isso =)


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Silvia Pilz não precisa pedir desculpas

Circula na rede e desperta revolta o texto escrito por Silvia Pilz no qual a autora destila todo o seu “horror à pobre” ao melhor estilo Caco Antibes. A autora recebeu grandes e justas críticas e respondeu com a velha fórmula “era só brincadeirinha”. Oh céus! Quando me deparo com essa justificativa me pergunto se falta à essa gente talento ou coragem. Talento para inventar uma desculpa melhor. Ou coragem para assumir o que escreveu. 

A falta de talento de Pilz é óbvia. Se o texto era para ser “divertidíssimo” a autora falhou miseravelmente. Foi muito, muito sem graça. Impressionante como o humor cafona dos comediantes sem-graça da stand up paulista está se proliferando no Brasil, né? Mas eu até compreendo as pessoas que insistem nessa fórmula, o insulto gera polêmica, a polêmica dá audiência. Pilz certamente ganhou a antipatia de muita gente, mas é igualmente certo que ela ganhou alguns fãs que a tratarão como mais uma mártir do “politicamente correto”. O mundo está vulgar e chato. Norbert Elias mostrou no seu belíssimo livro “A Sociedade de Corte” que a lógica que legitimava a existência da nobreza francesa era que os nobres eram os guardiões do belo, da alta cultura, da inteligência. Nossa Alta Classe Média - a nobreza da contemporaneidade - nem essa lógica preserva. São burros, miseravelmente burros em suas sentenças e desculpas. Burros e covardes. Covardes?   

Ok, concordamos que falta talento à Pilz, tanto se considerarmos o nível do texto dela quanto a desculpa que deu. 

E coragem? Bom, o clichê do “reductio ad humorem” (ou “redução ao humor”) já foi detectado, o que pode ser perfeitamente considerado falta de coragem de dizer logo que ela não gosta de pobre. Falo isso muito seriamente. Ela não tem obrigação de gostar de pobre, eu não tenho obrigação de gostar dela e você não tem obrigação de gostar de necas e muito menos de pitibiribas. Seria mais honesto e corajoso da parte dela simplesmente dizer: eu não gosto de pobre! Pronto, fim. Uns se revoltarão, uns gostarão, uns concordarão, outros xingarão. O efeito seria exatamente o mesmo que ela experimentou, a diferença é que ela seria mais honesta. Honesta com ela mesma, e principalmente, honesta com os leitores. E isso importa, porque ela escreve num grande jornal, tem um espaço de fala privilegiado, ser honesta com os leitores é o mínimo que ela deve fazer para merecer o próprio salário. 


Aí, envolta numa enorme covardia e falta de talento, ela ainda dá uma entrevista dessas na qual afirma que “não precisa se desculpar” já que disse a “verdade”. Verdade, que segundo ela seria o pressuposto de que “os pobres gostam de procriar”. Sim, Pilz, você não precisa se desculpar por não gostar de pobres. Não precisa nem se desculpar por sua covardia e falta de talento. Você não precisa se desculpar pelo o que pensa, mas precisa se responsabilizar pelo o que escreve, pelo o ato de tornar pública sua burrice. Não se desculpe mesmo, se responsabilize. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sobre ser ou não ser Charlie

O mundo Ocidental está dividido depois dos terríveis atentados ocorridos na França. O mundo Ocidental está dividido entre aqueles que condenam o atentado sem “…mas…” e aqueles que condenam o atentado, mas sob o véu do cinismo ou egocentrismo, dão malabarismos semânticos que muito mal disfarçam o maldito “eles mereceram”. 

Pelo meu primeiro parágrafo já dá para perceber de que lado eu estou.

Muita gente boa já escreveu a favor dos dois lados. Eu só justifico porque estou entre o grupo dos “sem mas…”. Minha defesa é simples, mas tem meandros complexos. Eu estou do lado em que estou porque acredito veementemente que entre os direitos humanos mais fundamentais está o direito de pensar e se expressar. É o livre-pensamento e a possibilidade de colocá-lo em debate público que nos torna humanos e mais humanos. Somos humanos porque pensamos, tentamos compreender, discutimos, e defendemos nossas idéias, e damos sentido ao mundo que nos rodeia. Não há condicionais para o direito fundamental de exercer, construir, desconstruir e reconstruir nossa humanidade. 

É óbvio que isso não significa que o pensamento está livre de crítica. Não está. Se me deparo com uma idéia com a qual discordo eu rebato, argumento, tento demolir os ARGUMENTOS que sustentam a idéia que me causa desconforto. Assim eu aprendo a organizar minhas próprias idéias, assim meus oponentes intelectuais e ideológicos podem fazer o mesmo. Lobão, o músico que virou polemista político, certa vez soltou uma frase que me marcou “o debate é um ato de amor”. Eu concordo, o debate é um ato de amor humano, debater com o outro é reconhecer a sua humanidade, o não-dito é como “eu te ouvi, tentei compreender o que você disse, eu discordo e vou te responder agora com minhas palavras”. 

O terrorismo é a negação da humanidade. O não reconhecimento da validade da expressão por si só é negar o valor humano do outro, quando negado esse valor o outro passa a ser um alvo que deve ser calado. 

Apesar de todos os tropeços o mundo Ocidental reconheceu a expressão das idéias como a expressão do próprio ser-humano. Não só reconheceu como protege esse valor fundamental como sua principal bandeira. A reconstrução dos Estados Nacionais pós-Guerra se pautou nesse ideal e esse ideal foi o motor ideológico que sustentou a oposição do Ocidente ao socialismo soviético. Esse ideal continua firme e forte e é ele que os jornalistas do Charlie Hebdo defendiam acima de tudo colocando suas próprias vidas em risco. Defendiam em todas as frentes, radicalmente, enfrentando o próprio governo francês as vezes, enfrentando a Igreja Católica, enfrentando os muçulmanos, enfrentado tudo o que quer limitar a livre expressão e consequentemente tirar um pouco de nossa humanidade. 

É por isso que eu sou Charlie Hebdo. Ao contrário do que li em algum lugar - dentre as dezenas de artigos que li sobre os atentados - eu não acredito que essa expressão seja uma simplificação. Há uma complexa e poderosa mensagem nessa declaração. É a declaração de que eu, e todos os outros Charlies, defendemos o humano.

Defendemos o humano, e os humanos.

Até os nigerianos massacrados pelo Boko Haram. É que o pressuposto que assassinou os cartunistas do Charlie Hebdo é o mesmo que apertou o gatilho que tirou a vida de mais de duas mil pessoas no país africano. É a negação da humanidade, é o ato nefasto de negar o direito de pensar e viver como se acha melhor. 


A comoção pelos mortos de Paris não é uma comoção apenas porque eles eram franceses, é uma comoção que reconhece que o gatilho fundamentalista que mata na França mata no mundo todo, e continuará a matar se não dermos uma resposta incisiva à isso: sem “mas”! Eu sou Charlie Hedbo. 

P.S. Está disponível na internet a primeira edição histórica do Charlie Hebdo. A edição está esgotada na França.